Deixamos tudo para responder aos apelos de Jesus?

Deixamos tudo para responder aos apelos de Jesus?

Em primeiro lugar, atentemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, a “luz salvadora” enviada por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Com qual destes grupos nos identificamos? Será possível sermos “cristãos praticantes”, andarmos envolvidos nas atividades da comunidade cristã e, simultaneamente, passarmos ao lado das propostas de Jesus? Nós, os que conhecemos as Escrituras, levámo-las a sério quando elas nos desafiam à conversão, ao compromisso, à opção clara pelos valores do Evangelho?

Os “magos” são os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da luz libertadora de Deus. Talvez hoje, com toda a pressão que a vida nos coloca, não consigamos ter tempo para olhar para o céu, à procura dos sinais de Deus; talvez a vida nos obrigue a andar de olhos no chão, ocupados em coisas bem rasteiras e materiais… Mas a aventura da existência terá mais cor se arranjarmos tempo para parar, para meditar, para falar com Deus, para escutar as suas indicações, para tentar ler os sinais que Ele vai colocando ao longo do nosso caminho… A nossa peregrinação pela terra não fará mais sentido se aprendermos a ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus?

O relato de Mateus sublinha, por outro lado, a “desinstalação” dos “magos”: eles descobriram a “estrela” e, imediatamente, deixaram tudo para procurar Jesus. O risco da viagem, a incomodidade do caminho, o confronto com o desconhecido, nada os impediu de partir. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, ao nosso comando da televisão, ao nosso computador, à nossa zona de conforto, à nossa segurança, ao nosso comodismo? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz, muitas vezes através dos irmãos que necessitam da nossa ajuda e do nosso cuidado?

Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. Estamos bem conscientes de que Jesus é o centro para o qual todos convergimos e do qual irradia a luz salvadora que ilumina a nossa vida e a vida do mundo? E, quando olhamos para os irmãos e irmãs que connosco se reúnem à volta de Jesus, sentimos a comunhão, a fraternidade, os laços de família que a todos nos ligam?

In site dos Dehonianos

Nas nossas famílias há solidariedade, união e fraternidade?

Nas nossas famílias há solidariedade, união e fraternidade?

Nestes dias de celebração natalícia, tempo por excelência de reunião familiar e de fortalecimento dos laços familiares, a Igreja convida-nos a contemplar a Família de Jesus, Maria e José. Que vemos? Com que cores nos aparece desenhado este quadro familiar? Sobretudo com as cores da unidade, da solidariedade, da fraternidade, da comunhão. A Família de Nazaré não é uma família “sem problemas”, onde a vida não “dói” e onde tudo é um mar de rosas: é uma família perseguida e ameaçada, que tem de abandonar a comodidade do seu lar para viver na clandestinidade, que enfrenta a pobreza, a privação, a precariedade, talvez a hostilidade da gente da terra onde procurou refúgio… No entanto, é uma família que as vicissitudes e crises não conseguem derrotar. Os membros desta família mantêm-se unidos, solidários, dispostos a enfrentar juntos os riscos e perigos, disponíveis para qualquer sacrifício quando a vida de algum deles está em causa. Não vivem em compartimentos estanques, onde a dor do outro não chega; não se fecham nos seus mundos pessoais, surdos e indiferentes àquilo que se passa à volta… Sentem-se responsáveis pela vida do outro, estão dispostos a dar a vida pelo outro, amam-se verdadeiramente. São assim as nossas famílias? Nas nossas famílias há solidariedade, união e fraternidade? Sentimos os problemas do outro e empenhamo-nos seriamente em ajudá-lo a superar as dores que a vida traz? A nossa família é, apenas, um hotel onde temos (por preço módico) casa, mesa e roupa lavada, ou é um verdadeiro espaço de encontro, de partilha, de construção, de solidariedade, de comunhão, de amor?

A Sagrada Família é uma família onde Deus está quotidianamente presente e é referência fundamental. Ali escuta-se a Palavra de Deus, aprende-se a ler os sinais de Deus, faz-se a experiência do amor de Deus. É na escuta da Palavra de Deus que a família de Nazaré encontra força para vencer as crises e contrariedades; é na escuta de Deus que a família de Jesus, Maria e José consegue discernir os caminhos a percorrer; é na experiência de Deus que a Sagrada Família descobre e acolhe os valores que estão na base do seu projeto familiar… As nossas famílias são famílias construídas à volta de Deus? São famílias onde se aprende a dialogar com Deus e a ver Deus como um Pai bom e cheio de amor? São famílias onde se escuta a Palavra de Deus, onde se aprende a ler os sinais de Deus, onde se procura perceber o que Deus diz? Na organização do nosso projeto familiar, encontramos tempo, espaço e vontade para reunir a família à volta da Palavra de Deus e para partilhar, em família, a Palavra de Deus?

In site dos Dehonianos

Queremos abraçar o essencial?

Queremos abraçar o essencial?

Mateus parece fascinado com esse facto extraordinário que é Deus acercar-se dos homens para estar com eles e para fazer caminho com eles. Recupera mesmo uma antiga profecia de Isaías para nos apresentar o Menino que vai nascer de Maria como o “Emanuel”, o “Deus connosco”. Há, efetivamente, algo de absolutamente maravilhoso nesta história de um Deus que se despe de todas as suas prerrogativas divinas e se “veste” do barro débil de que somos feitos, que entra no nosso mundo pela porta da humildade e se aproxima de nós com a ternura de uma criança, que aceita sofrer lado a lado connosco as dores que marcam o caminho dos homens e que enfrenta a morte para nos dar vida… E porque é que Deus se dispõe a fazer esse caminho descendente e a incarnar na nossa história? Simplesmente porque nos ama e quer oferecer-nos a sua salvação. Preparamo-nos para celebrar, nos próximos dias, o nascimento desse Menino, do Emanuel, do Deus que vem ter connosco para ficar connosco e para caminhar connosco. Estamos preparados para o acolher? Ele tem lugar na nossa vida, não apenas no dia de Natal, mas em todos os dias do ano? Estamos dispostos a acolher a salvação que Ele nos traz?

Vivemos nestes dias imersos num ruído de fundo que nos deixa pouco espaço para preparar o encontro com o Senhor… É o folclore das prendas “obrigatórias”, as luzes que piscam nas ruas e nas nossas “árvores de natal”, as músicas natalícias mil vezes repetidas, as tradições familiares que fazemos questão de respeitar, os petiscos tradicionais que é necessário preparar, os artefactos que a sociedade de consumo nos impõe, o cenário superficial e manipulado que nos espera sempre que entramos num centro comercial… Como conseguiremos descobrir, por trás de tanta superficialidade e aturdimento o mistério do Deus que vem ter connosco, do bebé chamado Jesus (“Deus salva”) que vem amorosamente trazer-nos uma proposta de salvação? Passaremos ao lado do Natal de Jesus se não conseguirmos fazer silêncio no nosso coração, abrir o coração ao mistério de um Deus que se aproxima de nós, saborear profundamente a chegada desse Deus Amigo que vem visitar-nos e quer encontrar lugar na nossa vida e no nosso coração. Ainda estamos a tempo: queremos, neste Natal, atirar para segundo plano as coisas supérfluas e abraçar o essencial, o Menino de Belém?

In site dos Dehonianos

Jesus continua a vir ao nosso encontro

Jesus continua a vir ao nosso encontro

No belo texto de Mateus que a liturgia deste terceiro domingo do Advento nos propõe, o próprio Jesus apresenta-se como o Messias que veio ao mundo para cumprir as promessas de Deus, para derrotar o mal e para abrir para os homens um caudal de vida abundante. A sua presença inaugura uma nova era, um mundo onde se rasgam caminhos novos para os deserdados, os abandonados, os injustiçados, os que não conhecem a alegria, os que vivem mergulhados nas trevas, os que caminham sem esperança, os que não têm voz nem vez. Esta maravilhosa história do Messias de Deus, contada por Mateus, não é uma história vivida e cumprida num tempo já fechado, com princípio, meio e fim há mais de dois mil anos; mas é uma história que continua a escrever-se hoje, para nós que vivemos no séc. XXI. Jesus continua a vir ao nosso encontro, a inundar de vida nova o nosso mundo velho, a curar as nossas feridas, a oferecer-nos generosamente a salvação de Deus. Estamos disponíveis para O acolher? Estamos efetivamente interessados em romper as velhas cadeias que nos prendem para abraçar essa vida nova e plena que Jesus nos vem oferecer?

Jesus, depois de ter terminado o Seu caminho na terra, reentrou na glória do Pai. No entanto, quando se despediu daqueles homens e mulheres que o tinham acompanhado desde a Galileia a Jerusalém e que tinham sido testemunhas de tudo o que Ele disse e fez, pediu-lhes que fossem, no mundo, os arautos da salvação de Deus. Hoje, mais de dois mil anos depois, isto é connosco. Nós, discípulos e testemunhas de Jesus, dedicamo-nos a fazer as obras que Ele fazia? Os “cegos”, encerrados nas trevas do egoísmo e do erro, podem contar connosco para saírem da escuridão e encontrarem a luz libertadora de Deus? Os “coxos”, incapazes de caminhar sozinhos, podem contar connosco para se verem livres daquilo que os limita e os impede de ir em frente, em direção a uma vida com sentido? Os “leprosos”, marginalizados e excluídos por uma sociedade que não tem lugar para todos, podem contar connosco para serem novamente acolhidos à mesa familiar dos filhos de Deus? Os “surdos”, fechados no seu mundo de autossuficiência e de silêncio, podem contar connosco para descobrirem a beleza do diálogo e da comunhão? Os “mortos”, os que vivem mergulhados no desespero e já desistiram de viver, podem contar connosco para aprenderem a sonhar com um amanhã de esperança? Os “pobres”, privados de recursos necessários para terem uma vida digna, podem contar connosco para se defenderem da miséria que lhes rouba a dignidade? Deus pode contar connosco para curar as feridas do mundo?

In site dos Dehonianos

Os nossos valores são os valores do “Reino”?

Os nossos valores são os valores do “Reino”?

João, o “Batista”, o profeta que veio preparar os homens para a chegada de Jesus coloca-nos hoje diante de um desafio fundamental: “convertei-vos”. Esta é, segundo João, a forma adequada de preparar o caminho para que Jesus possa vir encontrar-se connosco. O que significa exatamente converter-se? Sentir arrependimento por ter procedido mal? Fazer penitência para “reparar” os próprios pecados? Cumprir com mais fidelidade as práticas religiosas tradicionais? Dedicar mais tempo à oração? “Converter-se”, no seu mais genuíno sentido bíblico, é abandonar os caminhos que nos levam para longe de Deus (os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da preocupação com os bens materiais) e voltar para trás, ao encontro de Deus; é aproximar-se novamente de Deus, voltar a escutar Deus, passar a viver de acordo com as indicações de Deus; é tomar a decisão de viver ao estilo de Jesus, no amor, na partilha, no serviço, no perdão, no dom de si próprio a Deus e aos irmãos; é acolher o Reino de Deus e procurar torná-lo uma realidade no mundo. Só quem está disposto a percorrer este “caminho” pode acolher o Senhor que vem. Todos nós precisamos, mais ou menos, de redirecionar a nossa vida: abandonar os caminhos que não nos levam a lado nenhum e a dirigir-nos novamente para Deus. Estamos disponíveis, neste tempo de advento, para percorrer este caminho de conversão?

A interpelação de João, o “Batista”, não resulta apenas das palavras que ele diz; mas resulta, também, da forma como ele se apresenta, do seu estilo de vida, dos valores que transparecem na sua pessoa. João traja uma veste tecida com pelos de camelo e um cinto de cabedal à volta dos rins; o seu vestuário não tem nada a ver com as roupas finas dos sacerdotes que frequentam o templo ou dos cortesãos que circulam pelo palácio de Herodes Antipas. João alimenta-se de gafanhotos e mel silvestre, desses pobres alimentos que encontra nos lugares desolados que frequenta, e que não têm nada a ver com as iguarias delicadas servidas nos banquetes da gente rica. João é um homem austero, desprendido das realidades materiais, que não dá demasiada importância às coisas fúteis e efémeras, que vive voltado para o essencial e para os valores perenes. A sua prioridade é o anúncio da chegada iminente do “Reino dos céus”. Ora, o “Reino” é despojamento, simplicidade, amor total, partilha, dom da vida… São esses valores que ele procura anunciar, com palavras e com atitudes. E nós, quais são os valores que nos fazem “correr”? Quais são as nossas prioridades? Os nossos valores são os valores do “Reino” ou são esses valores efémeros e fúteis a que a sociedade dá tanta importância, mas que não trazem nada de duradouro e de verdadeiro à vida dos homens?

In site dos Dehonianos

“Vigiar” é “olhar com olhos de ver” o mundo que nos rodeia

“Vigiar” é “olhar com olhos de ver” o mundo que nos rodeia

Os evangelhos registaram, de diversas formas, uma das mais profundas preocupações de Jesus em relação aos seus discípulos: que eles, com o decorrer do tempo, deixassem enfraquecer o entusiasmo inicial, perdessem a capacidade de se sentirem provocados pelo Evangelho, se instalassem numa fé “morna” e numa religião rotineira, se acomodassem numa “zona de conforto” sem exigência nem risco, cedessem ao facilitismo e ao “deixa andar” da maioria. Por isso, Jesus não se cansava de recomendar-lhes: “vigiai”, “vivei despertos”, “estai sempre preparados”. Jesus tinha razão: o grande perigo que nos espreita é precisamente essa conformação e esse adormecimento que nos roubam a capacidade de sermos “sal da terra e luz do mundo”. O cansaço, a monotonia, a preguiça, o conformismo vão enfraquecendo a nossa decisão, o nosso compromisso, a nossa capacidade de dar testemunho profético e de nos empenharmos na construção do Reino de Deus. Enquanto discípulos de Jesus, enviados por Ele a anunciar e a construir o Reino de Deus, como nos sentimos: entusiasmados e comprometidos, ou acomodados e desanimados? Continuamos atraídos por Jesus e pelo seu projeto, ou vivemos distraídos por todo o tipo de questões secundárias? Ainda temos vontade de seguir atrás de Jesus e de viver ao seu estilo, ou vivemos tranquilamente e sem exigência, vogando simplesmente ao sabor da corrente?

“Vigiar” é, antes de mais, vivermos atentos a Deus. É procurarmos a cada instante escutar o seu chamamento, os apelos que Ele nos faz, os desafios que Ele constantemente nos deixa; é encontrarmos tempo e espaço para dialogarmos com Deus; é procurarmos compreender a vontade de Deus a nosso respeito e obedecermos àquilo que Ele nos pede; é não permitirmos que outros deuses tomem conta do nosso coração e da nossa vida. “Vigiar” é não perdermos de vista Jesus, esforçarmo-nos por viver ao seu estilo, segui-l’O sem hesitações no caminho do amor e do dom da vida; é insistirmos em ver a vida como Jesus a via, em olhar os nossos irmãos com o olhar de Jesus, em compreender o mundo com a compreensão de Jesus; é nunca desistirmos de sonhar com Jesus o “sonho” do Reino de Deus e empenharmo-nos a cada instante em torná-lo realidade; é deixarmo-nos interpelar constantemente pelo Evangelho, assentarmos a nossa vida de todos os dias sobre os valores que ele aponta. Deus é, a cada instante, o centro da nossa existência? Vivemos constantemente atentos ao caminho que Jesus nos aponta?

“Vigiar” é, também, “olhar com olhos de ver” o mundo que nos rodeia. Muitas vezes vivemos numa alegre inconsciência, anestesiados pelo nosso conforto e bem-estar, isolados no nosso pequeno mundo, sem repararmos nas realidades que nos cercam e sem nos preocuparmos com os problemas que afligem os nossos irmãos. Concentramo-nos apenas nos nossos interesses particulares, nas nossas preocupações pessoais, nos nossos projetos estreitos. Caminhamos indiferentes à sorte dos pobres, dos abandonados, dos “pequeninos”, daqueles cuja voz nunca se faz ouvir, daqueles que os acidentes da vida e a maldade dos homens atiraram para a berma da estrada da vida. Para não nos desgastarmos nem incomodarmos, preferimos ignorar tudo aquilo que desfeia o mundo e que traz sofrimento à vida dos homens. Jesus aprovaria uma opção deste tipo? Podemos alhear-nos das realidades do mundo e do sofrimento dos nossos irmãos como se isso não nos dissesse respeito?

In site dos Dehonianos