O teu ponto fraco nunca foi amar

O teu ponto fraco nunca foi amar

Existe algo de verdadeiramente belo na arte de dizer adeus. Somos preparados desde que temos memória para o momento em que eventualmente teremos de o fazer.

Acho que desde que sou gente que me lembro de aprender que a vida é cíclica, o que vai vem, o que dás recebes e que um dia o teu ciclo acaba e será a vez de outros iniciarem o seu.

Sempre pensei que, por ser algo que nos é prescrito desde sempre, seria fácil e breve. Uma palavra sem poder sobre a alma ou as emoções que correm o ser. A ação de ir sem remorso ou qualquer tipo de repercussão sobre o pensamento. Mas pensei mal. O que não nos dizem desde que somos gente é que existe uma força que nos une, uma linha que tece a pontos finos as ligações infinitas e invisíveis que nos tornam casa uns dos outros. O nosso ponto fraco é amar.

Aprendemos a amar mesmo antes de sermos um ser. Na realidade somos fruto de amor. Amor este que carregamos a cada passo que damos ou a cada encontro que temos e, deixando um pouco de amor com quem nos cruzamos, vamos tecendo e por vezes remendando estas ligações que não nos deixam sós. Vamos deixando um pouco de nós e eles deixam um pouco de si. Uma história de amor com final feliz, ainda que por vezes este final venha de forma abrupta e inesperada.

Já vos disse uma vez que amar é saber quando deixar ir, mas deixar ir torna-se difícil quando não somos nós a escrever a história.

Secretamente acho que desde que amamos alguém pensamos logo como lhe vamos querer dizer adeus. Não de forma consciente, claro! Mas inevitavelmente pensamos. Por vezes as nossas histórias não têm o final que queremos e, uma vez mais, culpo a vontade intensa que todos temos de amar e de romantizar o adeus.

Se não amássemos, tudo seria muito mais fácil. Se não amássemos, dizer adeus não valia a pena. É por isso que amar nos leva a viver cada segundo do hoje. Amar mantém-nos de pés assentes no presente e a cada sorriso nos torna parte da história de alguém que nos ama também. E que bom é saber que és amado! E sempre que estejas embargado pelo amor, deixa-te estar, não penses no adeus. E se um dia a hora de dizer adeus chegar, independentemente de como seja escrito o ponto final, permite-te sentir tudo o que amaste, tudo o que foste amado. Beija e abraça. E diz adeus com amor sabendo que o teu ponto fraco nunca foi amar.

Oslo, 8 julho 2025
Maria da Silva Viegas

 

Dia 1 – 27 Jul.,  Barcelona

Dia 1 – 27 Jul., Barcelona

Quatro da madrugada, o nascer do sol trespassa o para-brisas da nossa limusina Mercedes de 50 lugares. O caminho até Barcelona ainda é longo, voltamos ao sono que agora só paramos para almoçar nos arredores de Saragoça.

Fim de tarde marcada pela Eucaristia na Basílica da Sagrada Família, presidida pelo Patriarca D. Rui (que peregrina connosco noutro autocarro).

© Nuno MC

 

Ao chegarmos perto da basílica, cada olhar um pormenor novo para ver e entender, por fora ficamos boquiabertos com a dimensão e o detalhe da pedra talhada (um burro no meio, frutos nas taças no topo das torres), por dentro recebemos um abraço das cores dos vitrais.

© Nuno MC

 

A nascente vemos vitrais de cores frias (azuis e verdes) que nos recorda o nascimento de Jesus, com a luz da manhã torna o interior neste espectro de cores frias, a poente vemos vitrais de cores quentes (vermelhos, laranjas e amarelos) recordando a paixão de Cristo, pudemos presenciar estas cores com o sol das 18h.

© Nuno MC

Sentados à espera do começo da Eucaristia, os nossos olhos e pescoços mexiam e giravam 360⁰. Tanta informação para assimilar em 2 horas – colunas, vitrais, escadas, torres, “para-quedas” de Nosso Senhor, presbitério/altar.

© Nuno MC

Finda a Eucaristia, vamos para o alojamento nos Salesianos locais, que apesar da gentileza do espaço interior, os homens decidem-se por ficar ao relento debaixo de um alpendre ao pé do campo da bola a que demos uso!

Água quente, banho tomado, jantar na barriga e uma boa noite horizontal de sono!!


Rumamos a Turim, Itália!

 

Dia 0 – Preparação

Dia 0 – Preparação

Fazer lista, fazer mala, conferir a lista, conferir a mala… Foi assim no dia da partida, 1.700 jovens da Diocese de Lisboa, 37 da Amadora, juntaram-se à noite na paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes para celebrarem a missa de envio presidida pelo Patriarca D. Rui.

As malas dos peregrinos juntam-se no chão, enquanto a noite cai. A missa acaba e começa a logística: idas à casa de banho, sacos de comida, credenciais. Veem-se abraços e beijos entre pais e filhos enquanto se despedem pelos próximos 11 dias.

Convive-se, canta-se e joga-se à bola enquanto se faz tempo para a chegada do autocarro – somos o n.º 10, Santa Josefina Bakhita, dos 31 autocarros que partem de Lisboa para Roma.

Malas às costas e ao peito, sacos na mão. Já é amanhã! Com o peso das malas nos ombros vamos para o autocarro!

Malas no porão, finalmente costas sem peso. Hora de descansar e dormir algumas (poucas) horas.

Próxima paragem: Barcelona, Basílica da Sagrada Família

 

Saiba quem foi Santa Josefina Bakhita: https://santo.cancaonova.com/santo/santa-josefina-bakhita/

 

 

Vais ao Jubileu?

Vais ao Jubileu?

Foi assim que, durante muito tempo, perguntei a vários amigos se iam ao jubileu dos jovens em Roma. Rapidamente percebi que estava a fazer a pergunta errada e sinto que muitos de nós ainda não percebemos. Pode parecer um pormenor linguístico ou uma mesquinhice vazia de sentido, mas não é! O jubileu é o ano inteiro. Estamos a viver um ano de graça, um ano extraordinário, que não devemos deixar passar ao lado. Certamente abrir-se-ão várias portas para muitos neste ano da esperança. E, por isso, fazemo-nos à estrada, como Peregrinos da Esperança.

Porém, parece que para muitos cristãos é apenas mais um ano. Para os judeus o ano jubilar era realmente especial e as suas ações transpareciam isso mesmo. Libertavam todos os escravos hebreus, devolviam as terras aos seus donos originais, deixavam a terra descansar e ainda perdoavam dívidas, promovendo um reinício económico e evitando a escravização por dívida.

E para nós cristãos? Que relevância tem o jubileu? Como é que nos preparamos para o Jubileu?

A nossa vida certamente muda porque vamos ao jubileu dos jovens em Roma. Mas resume-se a isso? Dores de costas numa viagem de autocarro e turismo em comunidade? Não. É muito mais!

Requer preparação, que começa em perceber ao que vamos. Vamos em peregrinação e não em turismo. Vamos encontrar-nos com tantos outros jovens de todo o mundo. Separados por língua, cultura e história, mas unidos por uma pessoa: Jesus – a personificação da Esperança.

Algo que considero fundamental é estar realmente atento. Ter uma atitude de escuta e procura. As duas são importantes e complementam-se. Se estiver à procura de Jesus e não escutar ou se estiver a escutar, mas não estiver à procura d’Ele, poucos serão os frutos da viagem. Para muitos, esta é uma missão impossível no dia a dia. Complica-se ainda mais num contexto diferente do habitual, onde há tanta coisa para descobrir. Muitas vezes preocupamo-nos por ir em busca do desconhecido e esquecemo-nos do bom que é Aquele que conhecemos.

Tendo isto em mente, cabe-nos agora ir ao encontro. Certamente existirão imprevistos e situações inesperadas que nos vão tirar da zona de conforto.  Atrevo-me a dizer que será mais do que um encontro. Mexerá connosco, como um verdadeiro encontrão.

Por João Paulo Rodrigues

 

 

Testemunho | A experiência de ser catequista

Testemunho | A experiência de ser catequista

A experiência de ser catequista é algo profundamente significativo, especialmente quando se faz parte de uma comunidade tão acolhedora como esta. O catecismo está diretamente ligado ao ensinamento, e por isso é essencial transmitir bons valores às crianças e jovens. Muitas vezes, esses valores tornam-se até mais importantes do que a própria doutrina da Igreja, porque formar pessoas é, por si só, uma missão de grande responsabilidade.

Estamos a ajudar a moldar consciências, atitudes e formas de estar na vida. Ser catequista não é apenas ensinar conteúdos religiosos, mas sobretudo dar testemunho de fé através da vida e do exemplo. É no dia a dia, no diálogo, na escuta e na proximidade com os jovens que verdadeiramente se faz catequese.
Criamos laços que, muitas vezes, ficam para a vida toda. E é aí que percebemos que, apesar das exigências desta missão, ela é profundamente recompensadora. Acompanhar o crescimento humano e espiritual de cada criança ou jovem é um privilégio único.

No fim, mais do que saber de cor orações ou passagens bíblicas, o mais importante é que aprendam a amar, a respeitar e a viver com compaixão. Porque são esses valores que os vão guiar ao longo da vida e que realmente fazem a diferença no mundo.

Por Hélio Santos

 

A caravela!

A caravela!

Estava esta tarde na praia a admirar a sua cor.
Uma das primeiras tardes de verão do ano.
O ruído das ondas, pequenas, misturado com o dos veraneantes, criava um som de fundo indistinto.
No horizonte a réplica de uma caravela seguia lentamente em direcção ao alto mar.
Subitamente o riso de duas crianças trouxe-me de volta à realidade.
Rodeadas de centenas de outras pessoas, indiferentes, estes petizes desceram, qual Alice pela toca do coelho, ao seu mundo escondido de aventuras.
Perante o cenário do mar imenso, descobriram, num canto da praia, um pequeno córrego de água doce cristalina.
O ribeiro, permitam-me este exagero literário, não era nem longo nem fundo.
Três ou quatro metros de córrego que, saindo de umas rochas, rapidamente desaparecia no areal.
No entanto, as crianças não de detiveram a questionar nem a origem, nem a pequenez, nem o destino.
Simplesmente desfrutaram daquela água que lhes era oferecida pela natureza.
Tal a força da alegria da sua descoberta que em breve outras crianças se lhes juntaram.
Ao fim de poucos minutos uma pandilha de quase uma dezena deles ficaram a pular, a rebolar e a rir naquele cantinho da praia.
Os primeiros não questionaram a presença dos recém-chegados.
Uns maiores, outros menores.
Uns mais velhinhos, outros recém-saídos do colo.
Ninguém se arrogou o direito da descoberta.
Ninguém usou a sua maior força ou capacidade para obter um mililitro de água adicional.
A água, que não era de ninguém, por todos foi usada livremente, a todos serviu e a nenhum faltou.
Não foram precisos outros brinquedos, bolas, pás e ancinhos ou bóias.
Todos esses acessórios ficaram perdidos no areal.
Inúteis.
Era água, simples água.
Eram crianças, simples crianças.
Quem precisa de mais para ser feliz?
Um pai mais temeroso recomendava ao seu filho que não bebesse daquela água. Cumpridor, o malandreco, limitava-se a encher a boca para a transportar para onde aquela fazia falta à aventura.
Perante esta cena o mar perdeu a sua grandiosidade.
Ali, naquele momento, se explicou, caso disso houvesse necessidade, a opção de Cristo pelas crianças.
Reconhecem, aceitam e partilham.
Não complicam.
Não acumulam.
Não escondem.
Ah se a Boa Nova tivesse sido mantida apenas na mão das crianças…
Entretanto a caravela já tinha desaparecido.
Que tenha tido uma boa viagem!