Um dos rapazes teve um dia bastante complicado há pouco tempo. Por vários motivos, o dia na escola não correu da melhor forma e passou o dia bastante ansioso, sem conseguir controlar os nervos ou sequer as reações que tinha em relação a determinadas situações. Como se costuma dizer por vezes “congelou”, sem saber lidar com o que o estava a deixar assim.
No fim do dia, quando o fui buscar, falou-me sobre o que se tinha passado e como se tinha sentido. Tentei desfazer o novelo, conversando com ele sobre o que estava a sentir, como tinha conseguido reagir e que estratégias podia adotar para que isso não fosse tão impactante no seu dia e não se tornasse castrador.
Disse-me que uma das coisas que tinha feito, nos momentos em que ficou paralisado, foi começar a cantar. Eu respondi-lhe que eu própria já tinha feito o mesmo em momentos em que estava mais nervosa. Ele ficou surpreendido com a minha resposta, mas, ao mesmo tempo, percebi que se tinha sentido validado. E aí eu apercebi-me que a melhor forma que teria para o ajudar, depois de o escutar e fazê-lo sentir-se compreendido na sua fragilidade, seria dar-lhe a conhecer a minha fragilidade.
O que me fez perceber isso? O facto de também já ter passado por situações assim, em que, paralisada pelas minhas ansiedades, uma das coisas que me fez regressar, foi saber que alguém, algures, me tinha dito que já tinha passado pelo mesmo e tinha conseguido atravessar.
Desde esse dia e dessa conversa com o meu filho, que tenho refletido sobre isto… Talvez faça todo o sentido eles perceberem que também temos fragilidades. Às vezes, na ânsia irrealista de os protegermos, escondemos por completo o nosso lado menos resistente. Não estou a dizer que eles precisam de ver tudo, mas talvez possamos, aos poucos, conforme eles vão crescendo e sendo mais capazes de discernir o mundo à sua volta, levantar um pouco o véu sobre aquilo que nos torna, no fundo, mais humanos.
Pode parecer uma contradição, mas cada vez mais me convenço que é fundamental que eles percebam, desde cedo, que não somos super-heróis invencíveis.
Na verdade, e estando agora na Quaresma, foi isso que Jesus nos ensinou em todo o seu percurso e principalmente nos dias da Sua Paixão. O próprio Deus revelou-se na maior das fragilidades, morrendo na Cruz por todos nós, mostrando-nos que a face mais amável do ser humano é precisamente a sua Humanidade. Revelando ao mundo, em aparente contrassenso, que a nossa fragilidade é, simultaneamente, motivo de inquietude e caminho de salvação.
Assim sendo, revelando isto aos nossos filhos, eles saberão compreender que esta fragilidade humana, de que os pais também “padecem”, não só não é sinal de derrota, mas é sobretudo força para superação.
Andreia



