Felizes…

Felizes…

Felizes aqueles cujos nomes não ficarão gravados em parte alguma,
mas deixam a sua marca de beleza e de humanidade em cada palmo de história.
Felizes os amantes da Liberdade, da Bondade, da Justiça,
da Verdade tenazes opositores a todas as ideologias e fundamentalismos.
Felizes os jovens, ‘janela pela qual o futuro entra no mundo’,
que acolhem, com disponibilidade e gratidão, a herança dos mais idosos.
Felizes os estudantes que percorrem o seu itinerário formativo
com um coração íntegro e uma inteligência amanhecida.
Felizes os que assumem incumbências de poder com a paixão de Servir:
não traficam promessas, não negoceiam a honra, não conspurcam a alma.
Felizes os anciãos que vivem, com placidez, o carrego dos anos,
e albergam, nos corações, a fragrância de mil primaveras.
Felizes os que não usam máscaras nem se dissimulam em disfarces,
mas permitem-se ver, com limpidez e recato, na sua genuína imagem.
Felizes os filhos da esperança, irmãos do sonho, companheiros da utopia,
firmes rivais de todos os que nada fazem, não querem fazer, nem deixam fazer.
Felizes as famílias que, nas intempéries das suas relações,
substituem as increpações mútuas pela compreensão e pelo perdão.
Felizes os que não enfatizam o estrondo de uma árvore a tombar,
mas escutam, fascinados, o subtil murmúrio da crescença das outras.
Felizes os crentes que não se refugiam em inexpugnáveis castelos dogmáticos,
mas teimam habitar em frágeis tendas do encontro, do diálogo, da partilha.
Felizes os provados pelo sofrimento e golpeados pelos infortúnios,
que avançam com a ousadia dos santos e o garbo dos triunfadores.
Felizes os que resistem às propostas provisórias, descartáveis, envenenadas,
e alicerçam os pilares da sua vida na terra dos valores com os tons de eternidade.
Felizes os que repudiam o “racismo”, a “xenofobia”, o “etarismo”, o “sexismo”,
e acolhem todos com um sorriso e um abraço semelhantes aos de Deus.
Felizes os buscadores, os que se desprendem das seguranças e dos medos,
e partem para enfrentar o ignoto horizonte que está pela frente.
Felizes os que transportam o mundo inteiro dentro de si, que o amam, que o rezam,
e que “arregaçam as mangas” perante apelos à presença e à solidariedade.
Felizes aqueles que respeitam todos os territórios, não os invadem,
e se empenham no erguimento de pontes entre nações, culturas, religiões, pessoas.
Felizes aqueles que atraem pela sua simplicidade, humildade e empatia,
e comunicam, aos que deles se aproximam, alegria, paz, serenidade, luz, vida.
Felizes os que permitem ao coração responder ao apelo do Céu,
e que permanecem, quando os outros abandonam, e avançam quando todos fogem.
Felizes nós, que nos encontrámos com Jesus, O amamos, O seguimos,
e aqui estamos para O escutar e comer.

Felizes somos nós!

 

Felizes…

Finalmente, chegou o momento!

Finalmente, chegou o momento! Ansiava por ele.
A mensagem dizia: “Nasceu. Vem. Traz um presente.”
Peguei na caixinha, preparada há muito. Minúsculo recipiente.
Mas, por dentro, com as dimensões do Cosmos. E da Eternidade.
Senão, como poderia albergar tantos tesouros?
A saber: os cantores da alegria e da audácia, no palco do desalento;
a bravura dos que ficaram sem emprego mas não quebrantam;
o engenho dos construtores de pontes de comunhão e ternura;
os muitos perseguidos e violentados, que não desertam do Amor;
a paixão dos protagonistas na aventura da educação e da cultura;
a solidariedade de tantos, transfigurada em abraços e assistência;
a memória dos que perderam a vida por serem fiéis à verdade;
a fragância dos que têm um jardim no centro do coração;
o rosto dos que acreditam no poder do perdão e na magia da paz;
o sorriso dos que, apesar de todos os golpes, apostam na Vida;
a honra dos que não se vendem nem se deixam corromper;
o testemunho daqueles que estão sempre atentos e disponíveis;
o nome dos injustamente excluídos, acusados ou condenados;
o empenho dos jovens que se forjam para serem um futuro de luz;
a tenacidade dos que pugnam por um mundo sem fome;
os artífices de catedrais de beleza, nos terrenos da vulgaridade;
o olhar fascinante dos que transportam o Céu dentro de si.
Cheguei.
E ofertei, ao Menino, cada uma das preciosidades que levava.
O recém-nascido acolheu-as com um sorriso-gratidão-bênção.
E não ficou surpreso com o facto de uma tão exígua caixeta
ser uma fonte de onde jorrou tamanho manancial de dons.
Afinal, um Deus que reduz o seu Coração à dimensão do meu,
percebe, na perfeição, como estas coisas funcionam.

 

P. Carlos Jorge, Palavra de Deus & Palavra do Homem,
de P. Carlos Jorge (textos) e David Sineiro (fotos)
2014

Felizes…

A Oferenda Éramos Nós

Também fomos adorar o Menino.
Não levámos coisa alguma. Que poderíamos doar ao Senhor de Tudo?
A oferenda éramos nós. Pobres e frágeis, mas disponíveis.
Jesus e seus Pais agradeceram. Entregaram, a cada um, uma bolsa com 365 sementes.
Para serem depositadas, nos corações, uma a uma, todos os dias, ao longo do Ano.
Descobrimos que as sementes eram de abraço, obrigado, perdão, partilha, dádiva, paixão,
atenção, beijo, desejo, decisão, iniciativa, proposta, gentileza, vitória, amor, reconciliação,
oferta, evolução, viagem, sorriso, conversão, nascença, cuidado, compromisso, carícia,
renovação, sim, não, invenção, partida, chegada, pausa, demanda, sonho, tempo,
desafio, bênção, projecto, simplificação, recomeço, cântico, visita, lágrima, início, fim,
mudança, fortaleza, sublimação, subida, descida, determinação, atitude, pacificação,
passagem, entrada, festa, generosidade, verdade, fé, simpatia, disponibilidade, gratidão,
educação, afabilidade, amizade, escuta, benevolência, bom senso, humor, alegria, honra,
entusiasmo, simplicidade, fidelidade, inteligência, liberdade, persistência, audácia, paz,
humildade, sobriedade, empenho, responsabilidade, dança, serenidade, leitura, atenção,
festa, honestidade, paciência, justiça, tolerância, elegância, sobriedade, obediência,
santidade, respeito, dever, dignidade, bondade, carinho, confiança, castidade, encanto,
fraternidade, misericórdia, disciplina, criatividade, comunhão, harmonia, acolhimento,
pureza, doação, sabedoria, serviço, coragem, espanto, ternura, louvor, beleza, compaixão,
temperança, peregrinação, luz, resiliência, cumplicidade, amabilidade, oração, silêncio…
Exprimimos desejos para um Novo Ano. Mas não é ele que espera tudo de nós?
Lançaremos as sementes de Deus nas ‘terras’ das nossas vidas.
Na alma do Tempo, no coração de 2026, o poder da Esperança vai, de Novo, germinar

 

P. Carlos Jorge, in VENTO NESTE CAMINHO DE PEDRAS,
de P. Carlos Jorge (textos), Carina Tavares e João Afonso (ilustrações)
2021
(adaptado)

 

Felizes…

Olá, João!

Olá, João!
Numa pausa na minha peregrinação para o Céu,
resolvi enviar-te uma mensagem de gratidão.
A tua vida foi um cântico de provocação profética.
O traje que usavas era tosco e a tua aparência austera,
mas, por dentro, vestias-te com as roupagens dos enamorados de Deus.
Nutrias-te com coisa pouca, pois a tua fome era, sobretudo, espiritual.
Admoestavas com dureza, mas mantinhas boas audiências.
É que reconheciam-te como homem íntegro, autêntico, sem máscaras, inteiro.
Pregavas com a potência e o bramido das grandes tempestades,
mas fazias germinar primaveras nos corações dos que te escutavam.
No território da iniquidade, anunciavas a soberania do bem,
e alertavas para a premência da conversão.
Podias ter sido um líder incontestado e vitalício de um grupo de apoiantes incondicionais
(há tantos que sonham com isso!),
mas nunca permitiste que alguém se aprisionasse a ti.
Tão pouco te subjugaste a quem quer que fosse.
Eras uma eminência aos olhos de muitos,
apesar de, sempre, afirmares seres apenas uma minúscula semente.
Cavaqueavam sobre de ti, mas tu sempre falavas do Outro, O que viria,
e que era mais forte do que tu.
Baptizavas na água, mas anunciavas um outro baptismo: o do Sopro de Deus.
O teu testemunho convoca-me para novas cadências no andamento da minha vida.
Vou continuar a viagem.
Ainda não cheguei ao lugar onde tu já estás.

 

P. Carlos Jorge, in VENTO NESTE CAMINHO DE PEDRAS,
de P. Carlos Jorge (textos), Carina Tavares e João Afonso (ilustrações)
2021

 

Felizes…

“Quem é o maior no Reino do Céu?”

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: «Quem é o maior no Reino do Céu?» Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: «Quem se fizer humilde como este menino será o maior no Reino do Céu». | Mt 18, 1-4

“Quem é o maior no Reino do Céu?”
Todos se voltaram para Jesus, a quem era dirigida a pergunta.
Tinha sempre respostas imprevisíveis. Das que se gravam na alma.
Olhou para o Jónatas e chamou-o. Era um catraio de 6 anos.
Correu imediatamente para Jesus, com um sorriso no rosto.
Depois de o ter colocado no meio do grupo, Jesus afirmou:
“Quem se fizer humilde como esta criança será o maior no Reino”.
Depois de uns instantes de silêncio, soltaram-se os comentários.
Jesus abraçou o Jónatas, abençoou-o e foi-se embora. Eu também.
No regresso a casa, ao longo do caminho, envolvido pelo silêncio,
fui refletindo no que tinha visto e ouvido de Jesus.
Querem saber quem é o maior e Ele fala em ser pequeno.
Querem saber como ser famoso e Ele fala em ser discreto.
Querem saber como subir ao telhado e Ele fala em descer à cave.
Querem saber como ganhar a medalha de ouro e Ele fala em barro.
Querem saber como ser uma vedeta e Ele fala em chão.
Querem saber como dominar e Ele fala em humildade.
Querem saber como pertencer à elite e Ele fala de santidade.
Querem saber como ser o primeiro e Ele fala em ser o último.
Querem saber como ser o soberano e Ele fala em ser serviçal.
Querem saber como ter lugar reservado e Ele fala em liberdade.
Querem saber como ser graúdo e Ele fala em ser miúdo.
Querem saber como conquistar o Céu e Ele fala em beijar a terra.
No final do dia, pensava ter compreendido as palavras de Jesus.
Mas só uns tempos depois é que cheguei ao pleno entendimento:
quando recebi a notícia de que Jesus tinha ressuscitado.
Afinal era mais que um homem. Era Deus a caminhar ao meu lado.
Um Deus que se despojou do seu poder, que veio ao mundo,
que lavou os pés aos discípulos, que foi abandonado pelos amigos,
que foi preso, zombado, espancado e crucificado. E, no fim, venceu.
Tudo, por causa da Vida e do Amor. Por ti e por mim. Por todos.
Percebemos, finalmente, o que é ser o maior no Reino do Céu?

 

In Palavra de Deus, Palavras do homem

 

Felizes…

O que sou diante de Deus é o que importa

Asseveras que és mais inteligente, mais rápido, mais forte, mais verdadeiro,
mais bonito, mais generoso, mais habilidoso, mais rico, mais honesto,
mais esperto, mais simpático, mais trabalhador, mais criativo, mais eloquente,
mais cuidadoso, mais importante, mais perspicaz, mais atento, mais ilustrado,
mais educado, mais culto, mais humilde, mais organizado, mais bondoso,
mais iluminado, mais perfeito do que eu.
Ou seja: és melhor do que eu, em tudo. Certamente.
Não me interessam posições em tabelas e escalas.
Empenho-me, diariamente, em ser maior, não o maior.
Recordo palavras do Papa Francisco:
“Não somos mais porque falam bem de nós, nem menos porque falam mal de nós.
O que somos perante Deus, isso é o que somos e nada mais.”
O que sou diante de Deus é o que me importa.
E Jesus afirma que o maior, o primeiro, é o que serve.
Como disse, alguém: sobe-se para Deus, descendo.
Faço-te um pedido: assim que perceberes, em mim, o tique-de-ser-o-maior,
corrige-me imediatamente.
É o ‘homem velho’, que habita em mim, a querer dar nas vistas.
Ainda não consegui que partisse para bem longe da minha vida.

P. Carlos Jorge, in VENTO NESTE CAMINHO DE PEDRAS,
de P. Carlos Jorge (textos), Carina Tavares e João Afonso (ilustrações)
2021