Olá, João!
Numa pausa na minha peregrinação para o Céu,
resolvi enviar-te uma mensagem de gratidão.
A tua vida foi um cântico de provocação profética.
O traje que usavas era tosco e a tua aparência austera,
mas, por dentro, vestias-te com as roupagens dos enamorados de Deus.
Nutrias-te com coisa pouca, pois a tua fome era, sobretudo, espiritual.
Admoestavas com dureza, mas mantinhas boas audiências.
É que reconheciam-te como homem íntegro, autêntico, sem máscaras, inteiro.
Pregavas com a potência e o bramido das grandes tempestades,
mas fazias germinar primaveras nos corações dos que te escutavam.
No território da iniquidade, anunciavas a soberania do bem,
e alertavas para a premência da conversão.
Podias ter sido um líder incontestado e vitalício de um grupo de apoiantes incondicionais
(há tantos que sonham com isso!),
mas nunca permitiste que alguém se aprisionasse a ti.
Tão pouco te subjugaste a quem quer que fosse.
Eras uma eminência aos olhos de muitos,
apesar de, sempre, afirmares seres apenas uma minúscula semente.
Cavaqueavam sobre de ti, mas tu sempre falavas do Outro, O que viria,
e que era mais forte do que tu.
Baptizavas na água, mas anunciavas um outro baptismo: o do Sopro de Deus.
O teu testemunho convoca-me para novas cadências no andamento da minha vida.
Vou continuar a viagem.
Ainda não cheguei ao lugar onde tu já estás.
P. Carlos Jorge, in VENTO NESTE CAMINHO DE PEDRAS,
de P. Carlos Jorge (textos), Carina Tavares e João Afonso (ilustrações)
2021



