Família: o lugar onde o Amor é Rei

Família: o lugar onde o Amor é Rei

No Domingo passado, celebrámos – e vivemos agora fora dos “muros do templo”, na nossa vida – a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, vulgarmente conhecida como solenidade de Cristo Rei.

A mensagem que nos é oferecida, ao celebrarmos esta festa, já a ouvimos várias vezes, mas é sempre bom recordá-la: Cristo não é um Rei deste mundo. Cristo não é o Rei que faz uso do poder – como habitualmente o concebemos – e o exerce de forma implacável. O seu Reino não obedece à lógica de sucesso do mundo. Na verdade, a realeza de Cristo é paradoxal aos olhos da sociedade. De facto: “(…) as armas que esse rei leva consigo são o amor e a misericórdia; a autoridade que esse rei reivindica é a do serviço simples e humilde; o trono que este rei ocupa é uma cruz onde Ele derrama o seu sangue em benefício de todos; os soldados que rodeiam esse rei são gente desarmada, que Ele irá enviar pelo mundo a anunciar o amor e a paz; os súbditos desse rei são todos aqueles que aceitam colocar as suas vidas ao serviço de Deus e dos irmãos.”

O que pensar de um Rei que é aparentemente tão frágil? Que tipo de Reino devemos esperar de alguém cujo “governo” é esta entrega de Vida? Que líder é este que se recusa “mandar” e ser servido, preferindo ser Ele a fazer-Se entrega aos outros?

Cristo é Rei, sim; mas governa tendo como único poder o serviço e exerce-o para o bem de todos. O nosso Deus é omnipotente, sim; mas em Amor!

Ora, numa sociedade como a de hoje, onde o tipo de governo exercido por alguns nos faz pensar que a sua missão não é mais que satisfazer o desejo pessoal de exercer poder sobre aqueles em relação aos quais se acham superiores, esta forma de “reinar”, refletida em Jesus, é mais urgente que nunca!

É urgente educar para o Amor e para o serviço e a família pode ser um ótimo lugar para começar.

O nosso filho Guilherme, quando está mais aborrecido e irritado, costuma dizer: “Eu é que mando, eu é que sou chefe.” Não ficamos “escandalizados” com esta afirmação porque estamos a falar de uma criança – que está a aprender a controlar as suas emoções, em particular a raiva e a frustração –, mas dizemos-lhe (no momento e depois) que em nossa casa ninguém manda. Costumamos dizer que nós, pais, gerimos a casa e a família, sim, mas reforçamos que ninguém “manda” em ninguém.

Podem chamar-nos românticos por referirmos que “não mandamos”. Podem achar que esta atitude enfraquece a nossa autoridade como pais, mas nós acreditamos que não. Muitas vezes, confunde-se responsabilidade com poder. Outras tantas desvirtua-se o sentido da palavra “autoridade”, sendo austeridade o que se exerce. Por isso, e no rescaldo da Solenidade de Cristo Rei, talvez seja bom recordar que a primeira diz respeito àquele que é “autor”, àquele que cria, àquele que participa numa construção, e que a forma como Jesus vive as suas relações, ele que é o “autor da Vida”.

Não somos ingénuos e sabemos que em família têm de existir regras e respeito. Apenas preferimos ensiná-lo sem recorrer à pedagogia do medo e sem fazer uso de uma [hipotética] superioridade moral – que alguns acham existir – e que decorre de uma suposta hierarquia onde os adultos são superiores às crianças.
Com aquela imagem, o que queremos mostrar é que existem adultos que têm a responsabilidade de gerir a casa e “conduzir” a família (e que essa é a nossa função como pais), mas que, na nossa casa, o nosso filho tem a mesma dignidade que nós. Gostaríamos que o Guilherme percebesse que somos uma equipa, onde cada um tem as suas tarefas e funções (e onde os adultos têm responsabilidades diferentes das crianças) e que esta equipa trabalha para o bem de todos, para cada um poder ser quem é.

A família é lugar de serviço. Quando o dizemos, não estamos a afirmar que cada um se deve abnegar completamente e deixar de pensar em si e nos seus interesses. Porque somos humanos, com limites, e porque precisamos de cuidar também de nós, há que dividir tarefas e gerir os dons para que cada um participe de forma equilibrada nas responsabilidades familiares. No entanto, se encararmos cada tarefa com uma oportunidade de amar os outros, este serviço não será um fardo pesado, mas uma forma leve de viver. E aqui já não falamos de servilismo bacoco, mas de serviço humilde e verdadeiro, de uma entrega de nós próprios que faz o outro “ser mais”.

Nem sempre conseguimos fazê-lo na perfeição, claro, mas não desistimos de construir este “Reino” na nossa casa, que queremos que seja o lugar onde o único Rei é o Amor.

Dani & Pássaro

 

Estamos dispostos a fazer de Jesus a nossa referência?

Estamos dispostos a fazer de Jesus a nossa referência?

Faz sentido, em pleno séc. XXI, encerrar o ano litúrgico com a celebração da Solenidade de Cristo Rei do Universo? O título de “rei” que atribuímos a Jesus não será, nestes tempos “democráticos”, um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que nos conviria evitar? Tratar Jesus como “rei” não será pô-lo ao nível dos grandes e poderosos do nosso mundo? Ver em Jesus um “rei” não poderá contribuir para que fiquemos com uma ideia errada d’Ele e do projeto que Ele nos veio propor? Todas estas perguntas são legítimas; mas convém desde logo ter em conta que o próprio Jesus, questionado por Pilatos sobre a sua realeza, confirmou que era “rei” (cf. Lc 23,3). Na versão do evangelista João, Jesus diz mesmo a Pilatos que é um “rei” que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade” e que todos os que são da verdade devem escutar a sua voz (Jo 18,37). Sim, podemos celebrar a realeza de Jesus, nós que escutamos a Sua voz, que queremos viver na verdade e que o temos como a referência fundamental à volta da qual construímos a nossa existência. Convém, no entanto, entender a “realeza” de Jesus na perspetiva certa: Ele é um rei que veio oferecer aos homens a verdade que liberta; Ele reina através da força desarmada do amor; o seu estilo é o do serviço simples e humilde; a sua força é a que resulta da misericórdia e do perdão; o trono de onde Ele exerce o seu poder é a cruz onde oferece a sua própria vida em benefício de todos. É dessa forma que vemos e entendemos a “realeza” de Jesus? Estamos dispostos a fazer desse “rei” a nossa referência?
Ao longo do seu caminho pela história a Igreja nem sempre entendeu bem a realeza de Jesus. Julgou, em diversos momentos, que essa realeza lhe dava um mandato para se impor, para dominar, para condenar, para coagir, até mesmo para matar. Montou estruturas decalcadas dos impérios; enviou exércitos para combater os “infiéis”; impôs conversões forçadas; condenou e queimou muitos “diferentes” que não se reviam na “ordem cristã” ou que tinham uma visão do mundo e da fé não coincidente com a da hierarquia… É evidente que temos de olhar para muitos desses “equívocos” como “datados”, como acontecimentos que devem ser vistos e avaliados à luz de um determinado contexto histórico. No entanto, em pleno séc. XXI faz sentido perguntar: já nos livramos de toda essa mentalidade triunfalista, inquisitiva, intolerante, do espírito de cruzadas e de guerras santas contra o mundo e contra os que não pensam como nós? Faz sentido, depois de o nosso “rei” se ter apresentado ao mundo no trono da cruz, reivindicar dos poderes políticos honras e privilégios para a Igreja nascida de Jesus? Necessitamos de continuar a reproduzir, na Igreja, as estruturas de poder que a sociedade cultiva e que funcionam segundo lógicas que nem sempre coincidem com os valores do Evangelho? O que pensamos de tudo isto?

In site dos Dehonianos

Reconhecemos Jesus como o nosso rei?

Reconhecemos Jesus como o nosso rei?

O que significa concluirmos o ano litúrgico celebrando a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, rei do universo? Significa que, depois de termos caminhado com Jesus ao longo de um ano inteiro, sentimos que Ele é o nosso verdadeiro guia, o nosso verdadeiro mestre, o nosso verdadeiro Senhor; significa que, depois de termos andado com Ele por tantos caminhos e de termos enfrentado com Ele tantos desafios, confiamos incondicionalmente nas suas orientações e propostas; significa que, depois de termos experimentado a sua amizade e o seu amor, queremos apostar n’Ele toda a nossa vida; significa que, depois de termos caminhado ao ritmo das suas palavras e de termos sido alimentados com o seu Pão, nos sentimos mais fortes, mais livres, mais próximos da vida verdadeira que buscamos; significa que, tendo constatado a centralidade e a importância de Jesus na nossa vida, queremos construir à volta d’Ele toda a nossa existência. Aceitamos a “autoridade” de Jesus, não porque Ele nos impõe o seu poder, mas porque Ele nos toca com o seu amor. Como é que entendemos a realeza de Cristo? Reconhecemos Jesus como o nosso rei?

Diante de Pôncio Pilatos, o “prefeito” romano da Judeia, Jesus admite a sua realeza; mas deixa claro que essa realeza não assenta em poder, em autoridade, em riqueza, em domínio, em mordomias, em distinções humanas. Diante daquele funcionário do império que o questiona, Jesus está só, indefeso, prisioneiro, armado apenas com a força do amor e da verdade. A sua atitude, naquela hora decisiva, corresponde àquilo que foi toda a sua vida: obediência a Deus, serviço aos homens, solidariedade com as vítimas, doação total de si, testemunho da verdade. É com estas “armas” que Ele vai combater o egoísmo, a autossuficiência, a injustiça, a exploração, tudo o que gera sofrimento e morte. A lógica da vida de Jesus é uma lógica desconcertante e incompreensível, à luz dos critérios que o mundo avaliza e enaltece. Consideramos que a opção de Jesus faz sentido? O mundo novo, de vida e de felicidade plena para todos os homens nascerá de uma lógica de força, de autoridade e de imposição, ou de uma lógica de amor, de serviço e de dom da vida?

In site dos Dehonianos