Estamos dispostos a fazer de Jesus a nossa referência?

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Faz sentido, em pleno séc. XXI, encerrar o ano litúrgico com a celebração da Solenidade de Cristo Rei do Universo? O título de “rei” que atribuímos a Jesus não será, nestes tempos “democráticos”, um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que nos conviria evitar? Tratar Jesus como “rei” não será pô-lo ao nível dos grandes e poderosos do nosso mundo? Ver em Jesus um “rei” não poderá contribuir para que fiquemos com uma ideia errada d’Ele e do projeto que Ele nos veio propor? Todas estas perguntas são legítimas; mas convém desde logo ter em conta que o próprio Jesus, questionado por Pilatos sobre a sua realeza, confirmou que era “rei” (cf. Lc 23,3). Na versão do evangelista João, Jesus diz mesmo a Pilatos que é um “rei” que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade” e que todos os que são da verdade devem escutar a sua voz (Jo 18,37). Sim, podemos celebrar a realeza de Jesus, nós que escutamos a Sua voz, que queremos viver na verdade e que o temos como a referência fundamental à volta da qual construímos a nossa existência. Convém, no entanto, entender a “realeza” de Jesus na perspetiva certa: Ele é um rei que veio oferecer aos homens a verdade que liberta; Ele reina através da força desarmada do amor; o seu estilo é o do serviço simples e humilde; a sua força é a que resulta da misericórdia e do perdão; o trono de onde Ele exerce o seu poder é a cruz onde oferece a sua própria vida em benefício de todos. É dessa forma que vemos e entendemos a “realeza” de Jesus? Estamos dispostos a fazer desse “rei” a nossa referência?
Ao longo do seu caminho pela história a Igreja nem sempre entendeu bem a realeza de Jesus. Julgou, em diversos momentos, que essa realeza lhe dava um mandato para se impor, para dominar, para condenar, para coagir, até mesmo para matar. Montou estruturas decalcadas dos impérios; enviou exércitos para combater os “infiéis”; impôs conversões forçadas; condenou e queimou muitos “diferentes” que não se reviam na “ordem cristã” ou que tinham uma visão do mundo e da fé não coincidente com a da hierarquia… É evidente que temos de olhar para muitos desses “equívocos” como “datados”, como acontecimentos que devem ser vistos e avaliados à luz de um determinado contexto histórico. No entanto, em pleno séc. XXI faz sentido perguntar: já nos livramos de toda essa mentalidade triunfalista, inquisitiva, intolerante, do espírito de cruzadas e de guerras santas contra o mundo e contra os que não pensam como nós? Faz sentido, depois de o nosso “rei” se ter apresentado ao mundo no trono da cruz, reivindicar dos poderes políticos honras e privilégios para a Igreja nascida de Jesus? Necessitamos de continuar a reproduzir, na Igreja, as estruturas de poder que a sociedade cultiva e que funcionam segundo lógicas que nem sempre coincidem com os valores do Evangelho? O que pensamos de tudo isto?

In site dos Dehonianos