CRÓNICAS & OPINIÃO

Nasceu em outubro de 1942, em Almalaguês, Coimbra. Professou na Congregação em setembro de 1963. Tendo passado por Moçambique como religioso missionário, regressou a Portugal em 1975. Após o regresso ao país, ingressou na Universidade Católica Portuguesa, de Lisboa, onde concluiu os estudos em Teologia, tendo sido ordenado presbítero em abril de 1979, exercendo o seu ministério na paróquia de Alfragide. De 1980 a 1986, dedicou-se à formação no seminário menor da Congregação, no Porto. Em setembro de 1986, partiu para Roma, onde frequentou estudos de Teologia da Vida Espiritual e Teologia da Vida Religiosa. Foi diretor espiritual do Seminário de Alfragide até 1989, e, após este ministério, passou pelo Instituto Missionário em Coimbra, por Roma, onde orientou a formação de formadores Dehonianos, voltando a Coimbra, em 2015, onde permaneceu até 2020. Regressou a Roma por mais dois anos, até agosto de 2022, quando foi colocado no Seminário de Alfragide. Trabalha no Centro de Espiritualidade e colabora com algumas paróquias, nomeadamente a da Amadora.

Quaresma: Tempo para crescer no Amor

02/03/2026

Na tradição cristã, a Quaresma não é apenas um período de privação de alimentos, mas um tempo de profunda vida no Espírito, centrado na purificação da alma e no crescimento espiritual em preparação da Páscoa.

Os objetivos espirituais da Quaresma podem ser expressos com palavras ligeiramente diferentes, mas todas se referem a temas centrados na penitência em vista da conversão ou renovação, e na preparação para a celebração do Mistério Pascal, o tempo mais significativo do calendário litúrgico cristão.

O essencial da vida cristã está na união a Cristo no seu amor ao Pai e aos homens. A Quaresma é um tempo propício para nos renovarmos nessa união e nesse amor, utilizando os meios que a Igreja nos propõe: Penitência e Conversão, Jejum e Abstinência, Oração e Meditação, Caridade e Esmola, Renúncia e Simplicidade, Renovação das promessas batismais.

 

Penitência e Conversão

A penitência convida-nos a refletir sobre os atos que nos afastam de Cristo, sobre as nossas fraquezas e pecados no acolhimento e na vivência do seu amor. O nosso esforço de conversão não é outra coisa senão voltar-nos para o Crucificado de Lado aberto e Coração trespassado, para acolhermos o seu amor, que repara em nós os efeitos do pecado, e nos envolve na sua obra de redenção no coração do mundo. Ajudam à conversão a prática do exame de consciência, a confissão dos pecados e a renovação dos nossos compromissos de vida cristã.

 

Jejum e Abstinência

O jejum e a abstinência ajudam-nos a disciplinar o corpo, mas também nos permitem concentrar-nos no essencial da vida cristã: aproximar-nos mais de Cristo e de Deus Pai; aproximar-nos mais do próximo, dando maior atenção aos pequenos e aos que sofrem.

 

Oração e Meditação

A meditação da Sagrada Escritura, a oração mais intensa, a participação nas celebrações litúrgicas e nas práticas devocionais, como a Via-sacra, ajudam-nos a contemplar os Mistérios de Cristo para compreendermos o seu amor e crescermos na união com Ele no seu amor ao Pai e aos homens.

 

Caridade e Esmola

O mesmo se diga da caridade e da esmola ou, mais globalmente da prática das obras de misericórdia, recomendadas neste tempo santo, que nos ajudam a crescer na união com o Senhor. A verdadeira espiritualidade manifesta-se na atenção, no amor e no serviço ao próximo: “O que fizestes a um destes pequeninos, foi a Mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

 

Renúncia e Simplicidade

A renúncia aos prazeres materiais e a busca da simplicidade de vida também nos ajudam a aprofundar a nossa união a Cristo e o nosso relacionamento com Deus Pai, a libertar-nos dos impedimentos que dificultam o nosso crescimento na união ao Senhor e no seu amor oblativo ao Pai e aos homens até ao fim. E para além do fim:

“Vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o Lado com a lança e logo saiu sangue e água.” (Jo 19, 33-34).

 

Renovação das promessas batismais

A tradição litúrgica romana associa a vivência da Quaresma à renovação das promessas batismais. Somos encorajados a fazer memória do nosso batismo, a renovarmos os nossos compromissos com Deus e redescobrirmos a graça da sua nova vida em Cristo e com Cristo.

O propósito final da Quaresma é preparar-nos para a celebração da Ressurreição de Jesus Cristo e para vivermos a nossa própria ressurreição com Ele para uma vida nova, com uma transformação interior que nos permita participar mais profundamente no mistério da fé cristã e na ação amorosa de Cristo no coração do mundo, para Glória e Alegria de Deus e redenção da Humanidade. Numa meditação para o início da Quaresma, o Padre Dehon escreve:

“Jesus não nos dá apenas o segredo da sua força que é o amor, mas também nos ensina os meios para alimentar e fazer crescer em nós esse amor: a oração, a meditação da Sagrada Escritura, a solidão, o jejum. Eram as ocupações de Nosso Senhor no deserto; era assim que o seu divino Coração se preparava para as tentações que tinha decidido suportar para nosso ensinamento. São essas as virtudes que a Igreja nos convida a praticar durante o tempo santo da Quaresma, para crescermos no amor e na força, e para assumirmos uma vida nova na celebração dos grandes mistérios da Redenção” (L. Dehon, ASC 218).