No dia 26 de novembro de 1964, no pátio de prisão de Wamba, na República Democrática do Congo, depois de muitos e prolongados sofrimentos, na companhia de outros sete missionários dehonianos belgas, caía sob os golpes dos rebeldes simbas D. Joseph Wittebols, primeiro bispo da diocese. Tinha 52 anos de idade e era uma bela figura de pastor, cheio de vida e de entusiasmo missionário.
Nascido a 12 de abril de 1912, em Etterbeek, na Bélgica, Joseph Wittebols professou na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, Dehonianos, em 1932. Formou-se em Filosofia e Teologia em Lovaina. Esmerou-se na sua formação religiosa e sacerdotal, bem como em tudo o que lhe parecia poder vir a ser útil no seu futuro apostolado missionário. A sua boa cultura, notável sensatez e retidão de espírito, aliavam-se a um forte sentido de responsabilidade e à capacidade de entrega sem reservas à missão.
Quando rebentou a revolta dos simbas, foi-lhe dada a possibilidade de sair do Congo, tal como a outros missionários dehonianos. Todos decidiram permanecer para continuar a servir o povo nas circunstâncias difíceis que se adivinhavam e já começavam a concretizar-se.
O Padre Joseph Wittebols fora ordenado sacerdote em 1937, tendo partido para o Congo em 1938. Em Stanleyville, hoje Kisangani, assumiu como primeiro campo de apostolado o “Colégio do Sagrado Coração de Jesus” que, por decisão dos superiores, ele mesmo fundou e dirigiu até 1949. Era muito estimado pelo seu bom temperamento, otimismo, solidariedade e benevolência, de modo particular, para com os seus colaboradores.
A 24 de março de 1949, foi criado o vicariato apostólico de Wamba. O Padre Wittebols foi nomeado vigário apostólico, sendo ordenado bispo na capela da Procuradoria das Missões Dehonianas, em Bruxelas, a 16 de junho de 1949. Sob a sua orientação de pastor dinâmico, empreendedor e metódico, o vicariato conheceu um período de grande desenvolvimento, tornando-se diocese em 1959.
Joseph Wittebols preocupava-se com promover a alegria e o otimismo nos cristãos e nas comunidades. Pregava com o seu exemplo. Animava os sacerdotes e cuidava da vida espiritual e material das religiosas. Ajudava-as materialmente e dava-lhes adequada formação. Os seus ensinamentos foram recolhidos em dois livros: O Dom Total (1960) e Eis a Serva do Senhor (1962). Poucos dias depois da sua trágica morte, teve a alegria de presenciar, do Céu, o martírio da Irmã Anuarite Nangapeta, assassinada a 1 de dezembro, por defender o seu voto de virgindade. Viria a ser beatificada por S. João Paulo II, em 1985.
A declaração da independência da R. D. Congo, em 1960, com os distúrbios que se lhe seguiram, foi fatal para a missão de Wamba. No dia 15 de agosto de 1964, os rebeldes entraram na cidade, impondo um regime de terror. Multiplicaram as acusações, os insultos e as ameaças. Assassinaram muitos líderes indígenas e outras pessoas acusadas de colaboração com os colonialistas belgas. O bispo, que a tudo assistia desolado, desabafou: “O espírito que os anima não é bantu; deve vir de fora.”
A 29 de outubro, D. Wittebols, com todo o pessoal da missão, foi posto em prisão domiciliária, vigiado por soldados armados. Sucederam-se os ataques verbais, as torturas, as humilhações e os vexames. A forçada inação e a incerteza do amanhã criavam ansiedade e sofrimento. O Bispo via as instituições e as obras da diocese a desmoronarem-se, mas aceitava tudo sem se queixar. A sua calma e dignidade impressionavam a todos. Revelavam o seu total abandono em Deus. Nos ensinamentos às religiosas, tinha escrito: “A atitude de total abandono à vontade de Deus é a verdadeira essência da vida de Nosso Senhor. É o que faz de Jesus oblação pura ao Pai, a única capaz de redimir a Humanidade, reparando as ofensas feitas a Deus. Jesus fez-se homem para Se oferecer, como verificamos em toda a sua vida, desde o ‘Eis-me aqui!’, ao entrar no mundo, até ao ‘Tudo está consumado’, no altar da cruz. Foi também essa a disposição da Virgem Maria, a Corredentora, cuja vida foi inteiramente guiada pelo desejo de viver com amor a sua disponibilidade para Deus… Quem escuta o chamamento de Deus compreende que a sua vida não terá sentido se não for doada. Ser ‘dom’, não significa dar alguma coisa, mas dar-se a si mesmo, sem reservas. É ser ‘dom total para Deus’.” D. Wittebols viveu estas disposições. O seu lema de vida foi ser “dom total” para Deus e para os irmãos. “A vida não tem sentido se não for doada”, escreveu.
A Igreja de Wamba reconheceu a doação total do seu primeiro bispo, D. Joseph Wittebols, e leva por diante o processo para reconhecimento do seu martírio e consequente beatificação e canonização.



