by Padre Fernando R. da Fonseca, SCJ | Mar 2, 2026
Na tradição cristã, a Quaresma não é apenas um período de privação de alimentos, mas um tempo de profunda vida no Espírito, centrado na purificação da alma e no crescimento espiritual em preparação da Páscoa.
Os objetivos espirituais da Quaresma podem ser expressos com palavras ligeiramente diferentes, mas todas se referem a temas centrados na penitência em vista da conversão ou renovação, e na preparação para a celebração do Mistério Pascal, o tempo mais significativo do calendário litúrgico cristão.
O essencial da vida cristã está na união a Cristo no seu amor ao Pai e aos homens. A Quaresma é um tempo propício para nos renovarmos nessa união e nesse amor, utilizando os meios que a Igreja nos propõe: Penitência e Conversão, Jejum e Abstinência, Oração e Meditação, Caridade e Esmola, Renúncia e Simplicidade, Renovação das promessas batismais.
Penitência e Conversão
A penitência convida-nos a refletir sobre os atos que nos afastam de Cristo, sobre as nossas fraquezas e pecados no acolhimento e na vivência do seu amor. O nosso esforço de conversão não é outra coisa senão voltar-nos para o Crucificado de Lado aberto e Coração trespassado, para acolhermos o seu amor, que repara em nós os efeitos do pecado, e nos envolve na sua obra de redenção no coração do mundo. Ajudam à conversão a prática do exame de consciência, a confissão dos pecados e a renovação dos nossos compromissos de vida cristã.
Jejum e Abstinência
O jejum e a abstinência ajudam-nos a disciplinar o corpo, mas também nos permitem concentrar-nos no essencial da vida cristã: aproximar-nos mais de Cristo e de Deus Pai; aproximar-nos mais do próximo, dando maior atenção aos pequenos e aos que sofrem.
Oração e Meditação
A meditação da Sagrada Escritura, a oração mais intensa, a participação nas celebrações litúrgicas e nas práticas devocionais, como a Via-sacra, ajudam-nos a contemplar os Mistérios de Cristo para compreendermos o seu amor e crescermos na união com Ele no seu amor ao Pai e aos homens.
Caridade e Esmola
O mesmo se diga da caridade e da esmola ou, mais globalmente da prática das obras de misericórdia, recomendadas neste tempo santo, que nos ajudam a crescer na união com o Senhor. A verdadeira espiritualidade manifesta-se na atenção, no amor e no serviço ao próximo: “O que fizestes a um destes pequeninos, foi a Mim que o fizestes” (Mt 25, 40).
Renúncia e Simplicidade
A renúncia aos prazeres materiais e a busca da simplicidade de vida também nos ajudam a aprofundar a nossa união a Cristo e o nosso relacionamento com Deus Pai, a libertar-nos dos impedimentos que dificultam o nosso crescimento na união ao Senhor e no seu amor oblativo ao Pai e aos homens até ao fim. E para além do fim:
“Vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o Lado com a lança e logo saiu sangue e água.” (Jo 19, 33-34).
Renovação das promessas batismais
A tradição litúrgica romana associa a vivência da Quaresma à renovação das promessas batismais. Somos encorajados a fazer memória do nosso batismo, a renovarmos os nossos compromissos com Deus e redescobrirmos a graça da sua nova vida em Cristo e com Cristo.
O propósito final da Quaresma é preparar-nos para a celebração da Ressurreição de Jesus Cristo e para vivermos a nossa própria ressurreição com Ele para uma vida nova, com uma transformação interior que nos permita participar mais profundamente no mistério da fé cristã e na ação amorosa de Cristo no coração do mundo, para Glória e Alegria de Deus e redenção da Humanidade. Numa meditação para o início da Quaresma, o Padre Dehon escreve:
“Jesus não nos dá apenas o segredo da sua força que é o amor, mas também nos ensina os meios para alimentar e fazer crescer em nós esse amor: a oração, a meditação da Sagrada Escritura, a solidão, o jejum. Eram as ocupações de Nosso Senhor no deserto; era assim que o seu divino Coração se preparava para as tentações que tinha decidido suportar para nosso ensinamento. São essas as virtudes que a Igreja nos convida a praticar durante o tempo santo da Quaresma, para crescermos no amor e na força, e para assumirmos uma vida nova na celebração dos grandes mistérios da Redenção” (L. Dehon, ASC 218).
by Padre Fernando R. da Fonseca, SCJ | Fev 3, 2026
No dia 26 de novembro de 1964, no pátio de prisão de Wamba, na República Democrática do Congo, depois de muitos e prolongados sofrimentos, na companhia de outros sete missionários dehonianos belgas, caía sob os golpes dos rebeldes simbas D. Joseph Wittebols, primeiro bispo da diocese. Tinha 52 anos de idade e era uma bela figura de pastor, cheio de vida e de entusiasmo missionário.
Nascido a 12 de abril de 1912, em Etterbeek, na Bélgica, Joseph Wittebols professou na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, Dehonianos, em 1932. Formou-se em Filosofia e Teologia em Lovaina. Esmerou-se na sua formação religiosa e sacerdotal, bem como em tudo o que lhe parecia poder vir a ser útil no seu futuro apostolado missionário. A sua boa cultura, notável sensatez e retidão de espírito, aliavam-se a um forte sentido de responsabilidade e à capacidade de entrega sem reservas à missão.
Quando rebentou a revolta dos simbas, foi-lhe dada a possibilidade de sair do Congo, tal como a outros missionários dehonianos. Todos decidiram permanecer para continuar a servir o povo nas circunstâncias difíceis que se adivinhavam e já começavam a concretizar-se.
O Padre Joseph Wittebols fora ordenado sacerdote em 1937, tendo partido para o Congo em 1938. Em Stanleyville, hoje Kisangani, assumiu como primeiro campo de apostolado o “Colégio do Sagrado Coração de Jesus” que, por decisão dos superiores, ele mesmo fundou e dirigiu até 1949. Era muito estimado pelo seu bom temperamento, otimismo, solidariedade e benevolência, de modo particular, para com os seus colaboradores.
A 24 de março de 1949, foi criado o vicariato apostólico de Wamba. O Padre Wittebols foi nomeado vigário apostólico, sendo ordenado bispo na capela da Procuradoria das Missões Dehonianas, em Bruxelas, a 16 de junho de 1949. Sob a sua orientação de pastor dinâmico, empreendedor e metódico, o vicariato conheceu um período de grande desenvolvimento, tornando-se diocese em 1959.
Joseph Wittebols preocupava-se com promover a alegria e o otimismo nos cristãos e nas comunidades. Pregava com o seu exemplo. Animava os sacerdotes e cuidava da vida espiritual e material das religiosas. Ajudava-as materialmente e dava-lhes adequada formação. Os seus ensinamentos foram recolhidos em dois livros: O Dom Total (1960) e Eis a Serva do Senhor (1962). Poucos dias depois da sua trágica morte, teve a alegria de presenciar, do Céu, o martírio da Irmã Anuarite Nangapeta, assassinada a 1 de dezembro, por defender o seu voto de virgindade. Viria a ser beatificada por S. João Paulo II, em 1985.
A declaração da independência da R. D. Congo, em 1960, com os distúrbios que se lhe seguiram, foi fatal para a missão de Wamba. No dia 15 de agosto de 1964, os rebeldes entraram na cidade, impondo um regime de terror. Multiplicaram as acusações, os insultos e as ameaças. Assassinaram muitos líderes indígenas e outras pessoas acusadas de colaboração com os colonialistas belgas. O bispo, que a tudo assistia desolado, desabafou: “O espírito que os anima não é bantu; deve vir de fora.”
A 29 de outubro, D. Wittebols, com todo o pessoal da missão, foi posto em prisão domiciliária, vigiado por soldados armados. Sucederam-se os ataques verbais, as torturas, as humilhações e os vexames. A forçada inação e a incerteza do amanhã criavam ansiedade e sofrimento. O Bispo via as instituições e as obras da diocese a desmoronarem-se, mas aceitava tudo sem se queixar. A sua calma e dignidade impressionavam a todos. Revelavam o seu total abandono em Deus. Nos ensinamentos às religiosas, tinha escrito: “A atitude de total abandono à vontade de Deus é a verdadeira essência da vida de Nosso Senhor. É o que faz de Jesus oblação pura ao Pai, a única capaz de redimir a Humanidade, reparando as ofensas feitas a Deus. Jesus fez-se homem para Se oferecer, como verificamos em toda a sua vida, desde o ‘Eis-me aqui!’, ao entrar no mundo, até ao ‘Tudo está consumado’, no altar da cruz. Foi também essa a disposição da Virgem Maria, a Corredentora, cuja vida foi inteiramente guiada pelo desejo de viver com amor a sua disponibilidade para Deus… Quem escuta o chamamento de Deus compreende que a sua vida não terá sentido se não for doada. Ser ‘dom’, não significa dar alguma coisa, mas dar-se a si mesmo, sem reservas. É ser ‘dom total para Deus’.” D. Wittebols viveu estas disposições. O seu lema de vida foi ser “dom total” para Deus e para os irmãos. “A vida não tem sentido se não for doada”, escreveu.
A Igreja de Wamba reconheceu a doação total do seu primeiro bispo, D. Joseph Wittebols, e leva por diante o processo para reconhecimento do seu martírio e consequente beatificação e canonização.
by Padre Fernando R. da Fonseca, SCJ | Dez 22, 2025
A liturgia do Natal apresenta acentos de ternura na contemplação do mistério da Encarnação e do Nascimento do Senhor. Mas não se deixa invadir pelo sentimentalismo de algumas expressões da religiosidade popular. A Igreja celebra o Mistério do Natal na fé. Contempla o Verbo Encarnado, Jesus Menino, à luz da Páscoa. A carne por Ele assumida em Maria é a mesma que há de sacrificar, para nossa salvação na Páscoa.
O tema de Cristo Luz do mundo é também importante, sobretudo na celebração da meia-noite. Já a comunidade cristã, em princípios do século II, celebrava o Mistério junto à gruta de Belém onde Cristo, Luz do mundo, nasceu no meio da noite. Era uma celebração à luz de círios e de tochas. Depois, a comunidade dirigia-se para Jerusalém, a 8 quilómetros de distância, e aí celebrava a Eucaristia. A dimensão litúrgica da luz foi acolhida em Roma, no século IV, onde, no solstício de Inverno, os pagãos celebravam o Sol invicto. S. Máximo de Turim recorda: “O povo chama Sol novo (ao Natal) e com tanta autoridade o confirma, que até os judeus e os pagãos estão de acordo; devemos aceitar de boa mente esta perspetiva, porque, ao nascer o Salvador, não só se renova a salvação do género humano, mas também o esplendor do próprio Sol”. Esta ideia levou a Igreja a integrar na liturgia elementos bíblicos como: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz…” (Is 9,2) e “a glória do Senhor envolveu-os de luz“(Lc 2,9). O Prefácio I de Natal canta: “Nova luz brilhou sobre nós.” É a luz de Cristo, a luz da Revelação, a luz da Fé.
O Natal celebra também o início da restauração cósmica e o dom da Paz. O Verbo Encarnado une-se à natureza humana e, nela, de algum modo, a todas as criaturas. Começam a normalizar-se as relações dos homens com Deus, consigo mesmos, entre si e com a criação, relações quebradas pelo pecado. A Humanidade e a Criação participam na alegria do nascimento do Salvador e sentem a necessidade de corresponder a essa iniciativa amorosa de Deus. Canta um hino bizantino:
“Que havemos de oferecer-Te, ó Cristo, por teres vindo à terra feito homem, por nós? Cada uma das criaturas, criada por Ti, te oferece uma oblação de ação de graças. Os Anjos oferecem-Te o seu cântico, o céu o seu astro; os Magos os seus presentes; os pastores a sua admiração; a terra a sua gruta; o deserto a manjedoira. E nós, que vamos oferecer-Te? Oferecemos-Te a Virgem Mãe”.
A nossa salvação foi iniciativa do Pai, com a disponibilidade de Verbo: Eis-me aqui! Mas também com a disponibilidade de Maria: Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra. Com o “faça-se em mim” da Virgem de Nazaré, começou a obra da nossa salvação, com a restauração do Cosmos e da História. Como canta o Martirológio Romano, “o Verbo santifica o mundo com a sua piíssima vinda”. O Prefácio II de Natal afirma: “No mistério do seu nascimento. Aquele que, por sua natureza, era invisível tornou-Se visível aos nossos olhos. Gerado desde toda a eternidade, começou a existir no tempo, para renovar em Si a natureza decaída, restaurar o universo e reconduzir ao reino dos céus o homem perdido pelo pecado.”
É a “admirável troca” (admirabile commercium), que está no vértice da teologia e da espiritualidade do Natal. É o misterioso intercâmbio que nos redimiu: o Verbo fez-se carne e a quantos O receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 11-12). O Filho de Deus assumiu a natureza humana para que o homem pudesse participar da natureza divina. É o grande princípio da graça e da santidade cristã, que se torna dinamismo eficaz em nós por meio do Batismo, quando, de criaturas de Deus, nos tornamos seus filhos e membros de Cristo. O Natal é também festa da dignidade do homem. O amor de Deus abriu-nos uma possibilidade impensável:
“O Verbo faz-se homem por nós, dá a sua vida por nós; eleva-nos à união íntima com Ele e trata-nos como os seus amigos mais queridos… Como tudo é comum entre o Pai, o Espírito Santo e o Filho, cabeça do Corpo Místico, do qual somos membros, tornamo-nos participantes da vida divina e, de algum modo, da natureza divina.” (Padre Dehon).
O Natal tornou-se uma festa cultural celebrada em grande parte do mundo, mesmo pelos não cristãos. É a festa da fraternidade, da família e da paz. Tudo isso é belo e bom. Mas, para nós, cristãos, o Natal é a festa do Filho de Deus que, por nosso amor, assumiu carne humana em Maria, para encarnar em todos nós, transformar-nos à sua imagem e fazer evoluir o nosso mundo segundo o projeto do Pai. Por isso, havemos de celebrá-lo no íntimo dos nossos corações, na alegria das nossas comunidades, no calor das nossas famílias, tomando consciência da dignidade de todos os homens, em cujas veias, depois da Encarnação, circulam cromossomas de Deus.
by Padre Fernando R. da Fonseca, SCJ | Dez 8, 2025
Em finais do século XIX, a Igreja, em França, estava seriamente preocupada com a educação dos jovens e com a sua formação cristã.
Ao chegar a S. Quintino, em novembro de 1871, o Padre Leão Dehon, iniciou um trabalho notável em favor dos operários e suas famílias, dos patrões e dos jovens, procurando dar a todos formação humana, cristã, social e cívica, com o conhecimento da Doutrina Social da Igreja. O jovem sacerdote começou pela catequese. Era ainda muito forte a influência dos chamados “filhos da Revolução” (1789-1799), que não tinham recebido formação religiosa adequada e que, por isso, pouco sabiam da fé e da sua prática. Para a grande maioria dos batizados, a primeira comunhão era também a última.
Em 1873, o Padre Dehon lançou a Obra de S. José, para apoio e formação dos operários e cuidar das suas famílias, concretamente dos seus jovens. Em 1877, cria o Colégio S. João, para a educação e formação da juventude burguesa.
O Colégio S. João tornou-se um importante centro de formação para os jovens, futuros empresários e patrões. Além dos estudos curriculares, o Padre Dehon organizou diversas associações, como a Conferência de S. Vicente de Paulo para iniciar os jovens no apostolado da caridade, a Congregação Mariana para fomentar neles o amor a Maria, e as Obras da Propagação da Fé e da Santa Infância para incutir nos alunos o espírito missionário. Para desenvolver neles a capacidade da escrita e a arte do jornalismo, criou L’Aigle de St-Jéan, uma pequena revista semanal manuscrita e litografada. Muitos desses jovens participaram em congressos organizados pelo Padre Dehon para estudo das questões sociais da época: “Foram jornadas memoráveis, entusiastas, luminosas, que não se podem esquecer. Foi um pequeno concílio, um concílio de jovens”, escreveu o Fundador ao referir-se a um desses congressos. Num artigo intitulado “Espaço aos jovens e à democracia cristã!”, publicado em outubro de 1901, Leão Dehon pede aos jovens seminaristas que não se perturbem nem se assustem com “dois ou três sacerdotes ou cónegos idosos, atrasados três quartos de século”, que não aprovam ou não veem utilidade nas iniciativas sociais. E conclui: “Tendes convosco o Papa (Leão XIII); isso vos basta!”.
Em 1880, a Obra de S. José servia quase 600 pessoas, crianças, jovens e adultos. Era a iniciativa social mais importante da diocese para apoio dos operários e das suas famílias. Dispunha de Capela, salas de jogos, biblioteca, espaços de recreio, ginásio, de uma Caixa de Poupança para os operários e até de uma cooperativa para a construção de habitações. Havia Orfeão, formação pré-militar, teatro. O Padre Dehon fazia palestras, contava histórias e falava das suas viagens, procurando dar úteis ensinamentos para a vida de todos. Para a sua formação cristã promoveu diversas associações como a Congregação de Maria, o Apostolado da Oração e a Liga do Sagrado Coração de Jesus. Organizava Peregrinações a santuários, como o de Liesse, dedicado a Nossa Senhora da Alegria. Para a formação cultural, social e cívica dos estudantes pré-universitários, Dehon criou, em 1875, o Círculo José de Maistre. Propunha-lhes o estudo da organização do trabalho nas fábricas e oficinas de São Quintino, bem como das iniciativas das instituições da cidade em favor dos operários e dos outros trabalhadores. Cada um devia documentar-se para redigir um estudo e apresentá-lo aos mais novos e aos mais velhos da Obra, de modo criativo. O Padre Dehon também iniciava os jovens na arte do teatro, ensaiando, ele mesmo, algumas peças e promovia saraus musicais.
Aos empresários e patrões, Leão Dehon exigia liberdade para a prática da fé e do bem nos ambientes de trabalho. Em janeiro de 1877, dizia-lhes: “Por favor, senhores, dai liberdade a Deus e ao bem nos vossos ambientes de trabalho.”
O jovem sacerdote agia em favor dos rapazes e dos homens, mas também em favor das raparigas e das mulheres, obrigadas a trabalhos demasiado duros e desgastantes nas fábricas e nos serviços. Preocupava-se com as suas habitações, muitas vezes coletivas e precárias, e combatia o seu recrutamento para os bordéis de Paris.
O Padre Leão Dehon gastou muito do seu património na Obra de S. José e no Colégio São João. Não se pode dizer que tenha sido completamente original nas suas iniciativas, outros sacerdotes e leigos tinham lançado obras idênticas, mas o Padre Dehon imprimia nas suas obras o seu carisma e a sua opção pela cordialidade e pelo amor. Na relação com os jovens, evitava medidas repressivas e punitivas, agindo com uma pedagogia fundada nos valores da escuta, da confiança, da paciência e da proximidade. As suas propostas para mudar a sociedade consistiam em alertar as consciências, para correção das injustiças e para construção de uma sociedade nova caraterizada pela justiça e pelo amor. Por isso, ficou conhecido entre todos como Le trés bom Père.
by Padre Fernando R. da Fonseca, SCJ | Out 20, 2025
“O ideal da minha vida, o voto que entre lágrimas formulava na minha juventude, era o de ser missionário e mártir”, escreveu o Padre Leão Dehon nas suas Memórias.
Ordenado sacerdote a 19 de dezembro de 1868, sonhava evangelizar o mundo da Cultura e formar sacerdotes para os novos tempos.
Em novembro de 1871, colocado como sétimo vigário em S. Quintino, na sua diocese de origem, Soissons, em França, deu-se conta da falta de formação cristã dos paroquianos e dos graves problemas sociais que afetavam os operários e as suas famílias. Empenhou-se na Catequese e, em junho de 1872, criou a Obra de S. José, com diversas valências, para apoiar as famílias e promover a formação humana e cristã das crianças, dos jovens e dos adultos, incluindo os empresários da cidade.
Em 1877, criou o Colégio São João para educar, segundo princípios cristãos, a juventude burguesa, futuros empresários.
À sombra do Colégio São João, o Padre Dehon, em 1877, iniciou a fundação de um novo Instituto religioso, a Congregação dos Oblatos-Sacerdotes do Coração de Jesus, agora chamados Dehonianos. Faz os seus primeiros votos a 28 de junho de 1878.
Os objetivos da nascente Congregação eram o espírito de amor e de reparação pela união a Cristo na sua entrega de amor (oblação) ao Pai em favor dos homens. As atividades pastorais da Congregação limitavam-se à catequese, à formação cristã dos operários e patrões, com as suas famílias, às obras sociais e à sensibilização do clero para os desafios dos novos tempos. A atividade missionária em países longínquos não fazia parte desses objetivos. Alguns dos primeiros dehonianos dedicavam-se às chamadas “Missões Populares”, nas paróquias. Parecia ao Padre Dehon que as Missões em países longínquos dispersariam os seus religiosos e os afastariam dos objetivos da Congregação. Em breve, porém, se deu conta da sua importância e fez das missões uma opção preferencial para a Congregação.

Padre Dehon na despedida de um grupo de missionários
Em 1886, escrevia: “Os nossos missionários levam às terras infiéis o amor do Coração de Jesus.” Pouco a pouco, o Padre Dehon passa das reticências iniciais ao entusiasmo pelas chamadas missões ad gentes: “A vida dos nossos missionários é uma vida de reparação e de imolação como a nossa vocação exige.” As missões tornam-se lugar privilegiado para viver o amor que se doa por inteiro (oblação de amor) até ao sacrifício e à morte (imolação), se necessário. “É evidente que o Sagrado Coração de Jesus será mais honrado, se o zelo pela sua glória se exercer em condições difíceis, como nas Missões longínquas. Faz-se assim um ato de abnegação, e dá-se uma grande prova de amor a Nosso Senhor”, escreve.
Ainda durante a vida do Padre Dehon foram abertas missões no Equador (1888), no Brasil do Norte (1892), no Congo (1897), na Finlândia (1907), nos Camarões (1912), na Indonésia e na África do Sul (1923). Atualmente os Dehonianos estão presentes em 11 países da América do Norte e da América do Sul, em 20 países da Europa, em 7 países de África e em 4 países da Ásia. E preparam novas fundações em África e na Ásia.
Os Dehonianos portugueses trabalham em África, na Europa e na América do Norte.
Em janeiro de 1925, o Padre Dehon escrevia: “A minha carreira termina; é o crepúsculo da minha vida. O ideal da minha juventude era ser missionário e mártir. Parece-me que este ideal se realizou. Sou missionário nos mais de cem missionários que tenho em todas as partes do mundo.”

P. Carlos Luís Codorniú, Superior Geral dos Dehonianos, em visita às missões da R. D. do Congo
O sonho de ser mártir também se realizou nos muitos missionários dehonianos mortos na Indonésia, no Congo, nos Camarões, no Brasil, em Espanha, na Alemanha e em Itália. Nem sempre é fácil provar o martírio desses dehonianos. O certo é que se mantiveram fiéis à missão e ao povo que serviam, mesmo quando sabiam que arriscavam a própria vida. O preço de sangue foi particularmente elevado na República Democrática do Congo, onde, em 1964, foram assassinados 29 dehonianos, entre os quais, D. José Wittebols, Bispo de Wamba e o Padre Bernardo Longo, cujos processos de beatificação estão em curso. Neste país, mais uma vez se verificou que o sangue dos mártires é semente de cristãos. O primeiro missionário dehoniano, o P. Gabriel Grison, chegou à região de Kisangani, em 1897, tornando-se, mais tarde, o primeiro bispo no Alto Congo.
Atualmente os cristãos são milhões, continuando a crescer. O clero é já quase todo autóctone. E a Congregação floresce!
by Padre Fernando R. da Fonseca, SCJ | Set 29, 2025
Ó doce misericórdia de Deus, cheia de compaixão e de clemência, vós sois a minha esperança e a minha confiança (Leão Dehon, Ano com o Coração de Jesus, p. 487).
A esperança foi uma virtude central na vida do Padre Leão Dehon. Dela hauriu a força e a resiliência necessárias nas provações que teve de enfrentar durante a sua longa vida. A esperança do Leão Dehon fundamentava-se na sua fé ardente e na confiança ilimitada no amor misericordioso de Deus, cuja máxima expressão contemplava no Lado aberto e no Coração trespassado do Salvador. A esperança animou o Padre Dehon na concretização da sua vocação sacerdotal, na fundação da Congregação e no seu incansável serviço para corresponder às necessidades da Igreja e dos mais carenciados da sociedade do seu tempo. Ao celebrarmos o Jubileu da Esperança, no tempo da grave crise mundial que atravessamos, o Padre Dehon ensina-nos a cultivar uma esperança, que não é simples conforto para os nossos sofrimentos, mas é, sobretudo, força motriz para a nossa vida espiritual e para nos tornarmos criativos e ativos na busca e na implementação de soluções para os grandes problemas da humanidade. Esta esperança concretiza-se numa total confiança em Deus e no Sagrado Coração de Jesus, cujo amor continua presente e atuante no mundo de hoje para realizar a nossa redenção. Para Leão Dehon, as dificuldades da vida eram ocasião de participar ativamente na obra de redenção que Deus realiza em cada um de nós e na humanidade inteira, mediante uma intensa vida espiritual e um decidido empenhamento na busca de soluções para os problemas da sociedade.
Apesar das críticas, das calúnias, da falta de meios, o Padre Dehon olhava para o futuro com esperança, confiando na realização do Reino do Coração de Jesus nas almas e nas sociedades. Nas almas, pelos sacramentos e outros dons e meios de santificação; nas sociedades, pela instauração da justiça e da caridade: da justiça, em primeiro lugar, porque sem ela não há bem-estar, não há paz, não há futuro para a humanidade; da caridade, pois a simples justiça não consegue responder a todas as necessidades e problemas das pessoas e das sociedades.
O Reino da justiça e da caridade é, no entendimento do Padre Dehon, o Reino do Coração de Jesus; é o mundo como Deus o sonhou para nós: harmonioso, justo, fraterno. A esperança, fundada na misericórdia de Deus, permite-nos cooperar na construção desse Reino, ultrapassando as razões que podem induzir-nos ao desespero.
Quando celebramos o Jubileu da Esperança, no Centenário da morte de Leão Dehon – faleceu a 12 de agosto de 1925 –, cultivemos a espiritualidade da esperança, enraizada na união com Deus misericordioso e compassivo, e na confiança ativa, para ultrapassarmos as crises pessoais e coletivas com luz e paz que só Ele nos pode dar.
Na escola do Coração de Jesus, a exemplo do Padre Dehon, vivamos como testemunhas e cooperadores da esperança.